Paul Raffaele afirmou que uma menina Suruwaha recusou apertar a sua mão, pois, queria matá-lo. Na verdade, ele usava tanto protetor solar, o que fez com que a menina acreditasse que ele tinha alguma doença de pele.

Paul Raffaele afirmou que uma menina Suruwaha recusou apertar a sua mão, pois, queria matá-lo. Na verdade, ele usava tanto protetor solar, o que fez com que a menina acreditasse que ele tinha alguma doença de pele.
© Channel 7

Um programa da televisão australiana que classificou toda uma tribo amazônica como infanticidas; ‘cultuadores do suicídio’, presos na ‘Idade da Pedra’; e os ‘piores violadores dos direitos humanos no mundo’, tornou-se o alvo principal de uma nova campanha da Survival International contra a representação racista dos povos tribais na TV.

A campanha ‘Show de Horrores na TV’ tem como objetivo desafiar a representação na televisão de povos tribais como primitivos, atrasados e selvagens.

A transmissão no programa Sunday Night do canal australiano Channel 7 destacou o ‘aventureiro’ Paul Raffaele e o repórter Tim Noonan visitando a tribo brasileira dos Suruwaha.

Os Suruwaha já foram alvos de missionários fundamentalistas, da organização JOCUM, que falsamente afirmam que os membros de tal tribo assassinam regularmente bebês recém-nascidos. Os missionários fizeram um lobby no Congresso Brasileiro pela aprovação de uma lei permitindo que crianças indígenas sejam retiradas de suas famílias.

Os indígenas permitiram a entrada da equipe do Channel 7 em seu território, após o senhor Raffaele ter-lhes afirmado que filmariam um material ‘positivo’ sobre eles.

Porém, o fruto desse material gerou uma tempestade de protestos, com o diretor daSurvival International denunciando-o como ‘um dos relatos mais tendenciosos, enganosos e repugnantes que já vimos’.

O programa descreveu os índios como parte de ‘um verdadeiro culto ao suicídio’; um povo da ‘Idade da Pedra’; e ‘perdidos no tempo’. Retrata-os como ‘encorajadores de assassinatos de crianças deficientes… da maneira mais cruel possível’; levando ‘pobres e inocentes bebês à selva para serem devorados vivos por feras selvagens’; e por serem responsáveis por ‘uma das maiores violações dos direitos humanos no mundo’.

A matéria caracteriza os Suruwaha como 'os maiores violadores dos direitos humanos no mundo'

A matéria caracteriza os Suruwaha como ‘os maiores violadores dos direitos humanos no mundo’
© Adriana Azevedo/Survival

O site do programa também está abertamente angariando fundos para uma organização evangélica associada à campanha contra os indígenas.

A Survival escreveu ao Channel 7 marcando os diversos erros e distorções da matéria produzida, contudo, o canal de televisão rejeitou todas as acusações. A Autoridade Australiana em Mídia e Comunicação (ACMA) abriu uma investigação formal.

Raffaele, que já fora escritor da Smithsonian Magazine, já esteve em problemas antes – graças a uma matéria muito similar em 2006 do Channel 9, na qual ele afirmava em que um menino papuásio corria perigo em ser comido pelos elementos de sua tribo, a qual Raffaele descreveu como uma tribo de ‘canibais da Idade da Pedra’. O canal de televisão foi altamente atacado por especialistas, com o senhor Raffaele admitindo mais tarde que ele tinha até mesmo identificado erroneamente a tribo do menino.

O gigante da internet, Yahoo!, está em parceria com o Channel 7 na Austrália. A Survival escreveu ao Yahoo!, instando-o a remover a matéria de seu website, contudo, não obteve nenhuma resposta.

O diretor da Survival International, Stephen Corry, disse hoje, ‘ Essa matéria é um show de horrores no seu pior. Os indígenas são pintados como monstros cruéis, no espírito do desprezo colonialista do século XIX aos índios ‘selvagens e primitivos’. Isso é claramente formulado para ter o mesmo efeito – sugerindo que eles não merecem qualquer tipo de direito. A ideia de que tal absurdo é para ajudar crianças indígenas, é uma tolice’.

Um menino Suruwaha banha um bebê em um riacho

Um menino Suruwaha banha um bebê em um riacho

© Armando Soares Filho/FUNAI/Survival

A Survival escreveu um conjunto de diretrizes éticas para ajudar cineastas a trabalharem responsavelmente com povos tribais. Também está sendo usada a campanha Stamp it Out, na luta contra as representações racistas na mídia.

Nota aos editores: Formas de infanticídio são encontradas em todas as sociedades, inclusive nas industrializadas. A prática é rara e está desaparecendo entre os índios amazônicos. A Survival se opõe a práticas não consensuais, ainda que ‘tradicionais’, que machucam ou matam pessoas. Isso inclui o infanticídio.

Faça o download do arquivo da Survival sobre a proposta Lei Muwaji, resultado da campanha de missionários fundamentalistas da organização JOCUM no Brasil (pdf, 25 KB).

Faça o download do arquivo sobre o que os especialistas e os indígenas afirmam sobre as alegações de infanticídio por parte da JOCUM (pdf, 58 KB).

Faça o download da carta da Survival para o Channel 7 (pdf, 201 KB).

Faça o download das declarações dos índios Suruwaha sobre a matéria do Channel 7 (pdf, 33 KB).

Faça o download do material da Survival sobre a tribo Suruwaha (pdf, 34 KB).