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Novas imagens feitas durante um sobrevoo na Terra Indígena Piripkura (MT) revelaram que o território de um dos povos indígenas isolados em situação de maior vulnerabilidade do mundo está sendo ilegalmente invadido e destruído a um ritmo alarmante.

Essa invasão é uma violação flagrante da atual restrição de uso, que protege legalmente o território e que proíbe a entrada de pessoas não autorizadas na Terra Indígena Piripkura. Em setembro, esta restrição foi renovada por apenas seis meses, tempo insuficiente para retirar todos os invasores de forma efetiva e finalizar a demarcação do território.

Uma grande movimentação de caminhões foi registrada durante sobrevoo na Terra Indígena Piripkura, em outubro de 2021.

Uma grande movimentação de caminhões foi registrada durante sobrevoo na Terra Indígena Piripkura, em outubro de 2021.
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Dois indígenas Piripkura vivem no território, embora há relatos de que outros indígenas também vivam nas partes mais densas da floresta. Muitos indígenas Piripkura foram assassinados em massacres na década de 80.

Baita e Tamandua, dois homens Piripkura que estão entre os últimos sobreviventes de seu povo. Seu território está sob uma restrição de uso, mas corre o risco iminente de ser completamente destruído por madeireiros e grileiros.

Baita e Tamandua, dois homens Piripkura que estão entre os últimos sobreviventes de seu povo. Seu território está sob uma restrição de uso, mas corre o risco iminente de ser completamente destruído por madeireiros e grileiros.
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O sobrevoo foi realizado em outubro como parte da campanha #IsoladosOuDizimados, promovida pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e pelo Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (OPI), com o apoio de organizações parceiras, como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), a Survival International e o Instituto Socioambiental (ISA).

Como resultado das observações feitas no sobrevoo e em imagens de satélite, foi lançado o Dossiê “Piripkura: Uma Terra Indígena devastada pela boiada”, que revelou:

- Fazendas consolidadas no interior da TI Piripkura com construções rurais, cercas, pastagens manejadas, estábulos, ramais de acesso e pistas de pouso;

- Ocupações rurais recentes, com intensa movimentação de caminhões e tratores, construção de açudes, cercas, transporte de gado, estábulos e eletrificação rural dentro da TI;

- Ramais de transporte de gado e da madeira explorada ilegalmente encontram-se em bom estado de manutenção, o que evidencia o exercício de atividade econômica e/ou comercial frequente;

- O desmatamento no território explodiu nos últimos dois anos: houve um aumento de mais de 27,000% nesse período.

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O OPI também publicou um relatório sobre a destruição do território e a ameaça a sobrevivência dos indígenas isolados Piripkura. A pesquisa revelou que a Terra Indígena Piripkura é agora o território indígena com presença de isolados mais desmatado do Brasil. Mais de 12.000 hectares já foram destruídos.

A campanha #IsoladosOuDizimados alerta para o risco que quatro povos indígenas isolados correm caso o governo federal não tome providências legais para a proteção de seus territórios.

Em um vídeo lançado em agosto pela Survival, Rita, a única pessoa contatada dos Piripkura relatou seu medo de que invasores ilegais em breve assassinem seus parentes isolados

Sarah Shenker, coordenadora da campanha da Survival sobre povos indígenas isolados, disse hoje: “Não poderia haver prova maior da impunidade total – e do apoio total – que os invasores de terras desfrutam no Brasil de Bolsonaro: atividades de exploração comercial sendo realizadas dentro de um território indígena que deveria estar protegido por lei. Os invasores estão se aproximando rapidamente dos isolados Piripkura. Esses indígenas estão resistindo com todas as suas forças, e nós devemos fazer tudo o que podemos para apoiá-los. Somente um grande apelo público pode impedir o genocídio dos Piripkura e de outros povos indígenas isolados.”

Elias Bigio, ex- Coordenador-Geral de Índios Isolados e Recém-Contato (CGIIRC- FUNAI) e atual Presidente da Operação Amazônia Nativa (OPAN) disse: "Aquela área que nós sobrevoamos, é uma área nova, uma expansão dessa atividade para a pecuária, já exploraram as madeiras que agregam valor comercial para fazer exportação nesse estado ou externamente. E agora para fazer plantio de capim, para colocar gado ali dentro.”

O OPI afirmou no relatório: “A Terra Indígena e o povo Piripkura estão extremamente ameaçados. Da mesma forma que o ocorrido em outras Terras Indígenas ocupadas por povos isolados, na TI Piripkura a dilapidação do território indígena está claramente associada ao ‘efeito-Bolsonaro’ […] foi a partir de 2019 que se intensificam as invasões do território indígena.”