Protesto em Madri, Espanha, durante a visita do presidente da FUNAI Marcelo Xavier.

Protesto em Madri, Espanha, durante a visita do presidente da FUNAI Marcelo Xavier. © Helena Sánchez/Survival International

Em mais um episódio de pressão internacional, Marcelo Xavier foi recebido sob protestos em Madri nesta quinta-feira (21). Pela manhã, o presidente da FUNAI se retirou de uma conferência após Ricardo Rao, ex-funcionário da FUNAI, denunciar as políticas anti-indígenas de Xavier diante da plateia.

À noite, manifestantes concentrados em frente ao Ministério de Relações Exteriores da Espanha denunciaram a cumplicidade de Xavier e da atual gestão da FUNAI com o genocídio indígena no Brasil. Eles também protestaram pela falta de esforços do órgão durante as buscas pelo indigenista Bruno Pereira e pelo jornalista Dom Phillips, além dos ataques e perseguições promovidos pelo órgão contra lideranças e organizações indígenas.

“Diante de uma situação de guerra declarada contra os povos indígenas do Brasil pelo governo genocida de Bolsonaro, testemunhamos como um ‘cúmplice necessário’ como Marcelo Xavier Augusto da Silva é recebido em Madri. Chega! Os assassinatos e ataques aos povos indígenas e seus aliados no Brasil merecem uma resposta política contundente.” – afirmou Lola Rama, ativista da Survival International, durante seu discurso.

Desde o início de sua gestão em 2019, Marcelo Xavier acumula denúncias e reclamações, tanto de indígenas e seus aliados quanto de servidores da FUNAI. Ele também frequentemente defende o “progresso” para os povos indígenas, promovendo o roubo de suas terras para o agronegócio, assim como constantemente nega a situação de violência e desassistência que a falta de ações da FUNAI geram.

Protesto em Madri, Espanha, durante a visita do presidente da FUNAI Marcelo Xavier.

Protesto em Madri, Espanha, durante a visita do presidente da FUNAI Marcelo Xavier. © Helena Sánchez/Survival International

Xavier também já negou a existência de povos indígenas isolados em alguns territórios, colocando-se ao lado de políticos e fazendeiros desesperados por abrir, a qualquer custo, essas terras para a exploração exaustiva de seus recursos. Utilizando-se de estratégias como a redução da duração das restrições de uso ou até mesmo da não renovação das mesmas, Marcelo Xavier alimenta os planos de Bolsonaro e seus aliados em detrimento da sobrevivência de povos inteiros, que dependem da segurança e integridade de seu território para viver e correm o risco de serem dizimados.

A manifestação contou também com a presença da deputada hispano-brasileira Maria Dantas, que realizou um discurso denunciando a política anti-indígena promovida pelo governo Bolsonaro: “Esse senhor [Xavier] é politicamente responsável por muitas mortes de indígenas. Ele também é politicamente responsável pelo assassinato de Dom Phillips e Bruno Pereira […] politicamente responsável por muito do desmatamento que acontece agora no Brasil, com os grileiros, com toda a abertura do governo Bolsonaro para as transnacionais e também para seus amigos latifundiários.”

A deputada hispano-brasileira Maria Dantas discursa em protesto em Madri, Espanha, durante a visita do presidente da FUNAI Marcelo Xavier.

A deputada hispano-brasileira Maria Dantas discursa em protesto em Madri, Espanha, durante a visita do presidente da FUNAI Marcelo Xavier. © Helena Sánchez/Survival International

Nas duas últimas semanas, tanto o Parlamento Europeu aprovou uma resolução sobre a situação dos defensores dos povos indígenas e do meio ambiente no Brasil, em particular o assassinato de Dom Phillips e de Bruno Pereira, como a Corte Interamericana de Direitos Humanos determinou que o Estado brasileiro deve adotar as medidas necessárias para garantir a integridade pessoal e a saúde dos povos indígenas, além de providências para evitar a exploração e a violência sexual contra mulheres e crianças.

Desde o assassinato de Pereira e Phillips, em junho, organizações indígenas e indigenistas, como a APIB, a COIAB e o Opi, aumentaram a pressão pela remoção de Xavier do cargo. Deputados e senadores também fizeram requerimentos pedindo o mesmo, e servidores da FUNAI estão em greve exigindo que Xavier seja removido do cargo – 40 das 52 unidades da FUNAI organizaram protestos.

A campanha Isolados Ou Dizimados, que pressiona pela renovação de portarias de restrição de uso de terras de indígenas isolados, também se uniu pedindo a exoneração de Xavier: “Reivindicamos a exoneração imediata de Marcelo Xavier do cargo de presidente da Funai. Não aceitaremos a continuidade dessa política anti-indígena e da conivência direta com o extermínio deliberado da população indígena, de ativistas e de servidores da Funai no período do atual governo.”

Ricardo Rao, ex-agente da FUNAI, discursa em protesto em Madri, Espanha, durante a visita do presidente da FUNAI Marcelo Xavier.

Ricardo Rao, ex-agente da FUNAI, discursa em protesto em Madri, Espanha, durante a visita do presidente da FUNAI Marcelo Xavier. © Helena Sánchez/Survival International

Nota aos editores

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