Governo brasileiro abandona tribos isoladas a mercê de madeireiros e fazendeiros

Tribos isoladas, como esta da famosa fotografia aérea, agora enfrentam ataques genocidas à medida que o governo brasileiro corta os recursos necessários para proteger sua terra.
Tribos isoladas, como esta da famosa fotografia aérea, agora enfrentam ataques genocidas à medida que o governo brasileiro corta os recursos necessários para proteger sua terra.

© G.Miranda/FUNAI/Survival

Todas as bases governamentais das Frentes de Proteção Etnoambiental, que atualmente protegem as tribos isoladas da invasão de madeireiros e fazendeiros, podem ser suspensas, de acordo com informações vazadas à Survival International. Isso seria a maior ameaça enfrentada pelas tribos isoladas da Amazônia em décadas.

Agentes da FUNAI possuem um papel fundamental na proteção dos territórios dos isolados de madeireiros, fazendeiros, garimpeiros e outros invasores. Algumas equipes já estão sendo retiradas, e existem planos de que outras também sejam em breve.

Acredita-se que assim que tal proteção seja retirada, milhares de invasores entrarão nos territórios.

Estima-se que existam mais de 100 tribos isoladas no Brasil, mais de dois terços da população global de povos isolados. Muitos deles vivem em territórios indígenas que totalizam mais de 54.3 milhões de hectares de floresta protegida, uma área semelhante à da França. Evidências demonstram que territórios indígenas são as melhores barreiras ao desmatamento.

Estes territórios são protegidos por apenas 19 equipes dedicadas. É possível que todos as 19 equipes sejam eliminadas do orçamento federal, apesar de o valor anual necessário para mantê-las ser menor do que o salário e benefícios pagos a apenas dois deputados federais brasileiros por ano.

Agentes da FUNAI. Equipes de campo trabalham para manter invasores fora do território de indígenas isolados, mas esta proteção vital pode ser retirada.
Agentes da FUNAI. Equipes de campo trabalham para manter invasores fora do território de indígenas isolados, mas esta proteção vital pode ser retirada.

© Mário Vilela/FUNAI

Estas propostas são as mais recentes em uma longa lista de medidas aprovadas pelo governo de Michel Temer, e podem ter consequências catastróficas para os povos indígenas no pais.

A líder indígena Sonia Guajajara disse: “Cortando o orçamento da FUNAI, o governo está declarando a extinção dos povos indígenas.”

Paulo Marubo, indígena do Vale do Javari, disse: “Se desativar [as Frentes de Proteção Etnoambiental] vai voltar como era antes, quando morreram muitos índios de massacre ou de doença… Mas se entrar madeireiro aqui ele vai querer fazer contato com os isolados, vai transmitir doenças e até matar.”

Manifestantes indígenas em Brasília, Brasil.
Manifestantes indígenas em Brasília, Brasil.

© Fabio Nascimento / Mobilização Nacional Indígena

Muitos afirmam que os laços do governo brasileiro com poderosos membros do agronegócio e da bancada ruralista – que consideram territórios indígenas uma barreira a sua própria expansão – podem ser parte da motivação por trás de tal proposta.

Uma grande mobilização nacional, o Acampamento Terra Livre, está ocorrendo esta semana em Brasília contra propostas do governo de enfraquecer drasticamente os direitos dos indígenas.

As tribos isoladas são os povos mais vulneráveis do planeta. Populações inteiras estão sendo dizimadas pela violência genocida de estranhos que roubam suas terras e recursos, e por doenças como a gripe e o sarampo, às quais não têm resistência.

A Survival International está liderando a luta global pelo direito das tribos isoladas a suas terras, e de determinar seus próprios futuros.

O diretor da Survival, Stephen Corry, disse: “Cortes no orçamento para proteger as tribos isoladas claramente não têm a ver com dinheiro – o valor envolvido é minúsculo. É uma manobra política do agronegócio que vê as tribos isoladas como uma barreira ao lucro e está de olho em áreas da floresta tropical que até agora estavam fora de seu alcance para a exploração. A realidade é que estes tipos de cortes podem ser uma permissão ao genocídio das tribos isoladas.”